.txt

Texts

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Palavras, imagens e corpos em movimento
Movin tipography, moving images, moving bodies

por Fernando Galrito

Em muitos trabalhos artísticos encontramos a reinvenção da cronofotografia de Marey ou da decomposição do movimento de Muybridge. Tanto em alguns trabalhos de animação onde se recusa uma concepção de animação de “desenhos que se movem” utilizando os movimentos do performer para exprimir ideias, emoções, através dos movimentos do corpo.
Em .txt imagens e corpos são um único. As palavras são tão importantes como os gestos ou como as imagens que delas resultam. Estão lá para provocar reacções fortes, pelo seu valor e pelo seu movimento. E o movimento é por vezes o fundamental para captar o imaginário. Como um bailarino, quando manipulado pode ser, um ser humano, mas também pode ser um animal, um objecto inanimado, no entanto seus movimentos continuam a ser uma forma de dança.
Em .txt queremos realçar a interacção, a generatividade e a emotividade que reúnem os movimentos do performer e as Imagens em movimento que são, numa primeira leitura, letras, palavras, texto… tipografia. A grafia apresenta um lado transversal ao seu valor semântico. As palavras que vão povoando o espaço são imagens e movimento. As palavras|imagens|movimento apresentam-se sem significado sintáxico, sem continuidade compreensível à gramática de uma linguagem, antes compreensível na sua relação com o espaço e o tempo, com o seu movimento.
E o movimento não corresponde a uma vontade de representação ou auto-referência, mas sim a uma acção de conhecimento, de observação e de experimentação. As imagens e corpos em movimento apresentam como um conjunto de experiencias que emergem das memórias das periferias do corpo e da consciência. Os movimentos gerados pelos diferentes personagens, performer e tipografia, são a representação da relação entre ambos. Transportando cada um, o corpo do performer e as imagens|palavras, uma energia cinética que possibilita uma expressão da fisicalidade inerente a ambos, que represente e possa ser entendida como uma manifestação de vida.
A desordem da grafia que por vezes se apodera do ecrã, passa a ter uma compreensão mais ligada ao seu valor gráfico, à sua sequência e ao valor do seu movimento. Tal como um “virus”, passando a confundir-se, a interagir, a tomar e mesmo a controlar o corpo e os movimentos do performer.
Queremos levar a um esquecimento das tecnologias de registo e de difusão das imagens antes, pensar o encontro de imagens e de corpos e dos seus movimentos como um todo.
As imagens, os movimentos e os corpos devem ultrapassar tanto o ecrã como o espaço cénico. Esquecendo as formulações gramaticais, sintáxicas, semânticas ou semiológicas. Elas são um todo dramatúrgico, emotivo, sensível e devem tornar-se numa experiência transcendental que pode levar-te para outro local, para outra emoção e induzir no corpo de cada um as suas (próprias) experiências.

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Motivações, práticas e reflexões .txt
por Fernando Nabais

Onde começa a criação de um objecto de arte tecnológica? Como decorre esse processo entre duas formas de conceber e criar aparentemente tão divergentes? Num cruzamento inevitável da arte com a tecnologia, o processo criativo fundiu desde o seu início, a intenção da plasticidade e formalização, com a tecnologia que a suportaria.
O processo de criação da peça “.txt” foi entendido, desde o seu inicio, como de exploração dos media performance e tecnologia interactiva mas sempre procurando a integração, ou servindo, um conteúdo e propósito dramatúrgico.
Esta intenção só poderia materializar-se através de uma equipa multi-disciplinar, congregando saberes complementares, com uma articulação flexível e mutuamente inspiradora. A criação de inovações tecnológicas mais profundas e a sua integração no universo da criação artística é, cada vez mais, responsabilidade de equipas multi-disciplinares às quais é, de inteira justiça, estender o epíteto de artista colectivo.
A criação da performance digital interactiva “.txt, foi similarmente resultado da sensibilidade artística dos engenheiros e da tecnicidade dos artistas.
Integrando um conjunto de meios que já criaram muitos paradigmas e códigos próprios, a sua remediação e recontextualização marcaram também a estratégia criativa da peça “.txt”. Se o texto é o elemento central da peça, a simulação visual e sonora a sua formalização, a interactividade é o elemento condutor que se procura também explorar, reflectindo abordagens que se pretendem inovadoras.
Ancorado numa clara intenção de integrar eficazmente toda o potencial comunicacional da performance digital interactiva mas, também de a questionar, colocaram-se várias questões ao longo do processo criativo que resultaram da própria prática criativa mas também de uma investigação que procurou traçar-lhe o percurso histórico, as motivações e as práticas.
Interactividade no contexto performativo
É normal que um encenador tradicional não encontre nas possibilidades interactivas de detecção e consequente activação de eventos reactivos uma grande vantagem para além do que já resolve com uma equipa técnica competente e atenta. É, também natural, que a utilização de interactividade nesses mesmos contextos seja para o público, pouco mais do que um espectáculo bem encenado do ponto de vista de rigor técnico. Como integrar do ponto de vista da narrativa, dramaturgia, encenação e movimento do(s) performer(s) essa tão especifica categoria da interactividade, em tempo real ou não, tornando-a óbvia e natural ao espectador?
O espectador passivo mas consciente da interactividade com o(s) performer(s)
Que estratégias adoptar no sentido da utilização da interacção enquanto elemento intrínseco ao meio? A convocação e a remediação de outras obras e princípios de interactividade, mesmo recontextualizadas, facilitam a percepção dos mesmos, apesar de resultantes da interactividade alheia. Para além da convocação da literacia digital do espectador, reconhecendo como interactivos os dispositivos envolvidos na detecção e simulação ao longo da peça, reportando-os também à sua própria experiência com o universo digital, algumas abordagens experimentais e conceptuais foram sendo desenvolvidas.
O espectador enquanto performer da peça
A integração de conteúdos, criados e submetidos pelos espectadores, no próprio conteúdo plástico da peça, permitindo ao performer a interacção com os mesmos, é também uma procura de reforço da percepção da interactividade, assim como um conscientemente assumido recurso narrativo.
A interface enquanto conteúdo
A detecção não intrusiva do performer e da performance através da visão por computador, os algoritmos de interpretação gestual e a capacidade de simulação das reacções por descritores comportamentais, estendem o conceito de palco responsivo a um ambiente que quase se poderia considerar vivo e no qual o performer é apenas uma das componentes.
Exploding the frame
O que há para lá do rectângulo da projecção de vídeo? Como se integram elementos cenográficos reais enquanto elementos estruturais da interactividade e da simulação?
Foi na procura de novas soluções cenográficas, na sua complementaridade ao nível imagético e narrativo mas, também interactivo, que o desenho do espaço cénico e de adereços se desenrolou.

É, pois, neste conceito integrado de utilização e questionamento dos media performance e tecnologia interactiva, que se forma a peça “.txt”, forjada na intenção de exploração destes media e no encontro quase que pré-destinado ente as artes performativas e as artes interactivas, que procura compreender na sua quase inevitabilidade histórica, artística e tecnológica.

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O código-fonte de um espectáculo

por Stephan Jürgens

É no caderno do coreógrafo que se materializa a pouco visível, mas estreita relação da dança com a escrita, e de uma escrita pessoal e idiossincrática com a dança. Hoje encontramos frequentemente programadores em equipas de artistas que utilizam as novas tecnologias digitais para a realização dos seus projectos. E o que é interessante, é que o fazem trabalhando com um dos mais antigos media, a ESCRITA. O source code, ou código-fonte, produz aquilo que vemos, ouvimos, sentimos. O computador é em essência um medium de escrita capaz de gerar superfícies ou software multimédia, e interfaces para a respectiva hardware.
O código-fonte e as suas qualidades gerativas podem assim ser comparados a outros “textos performativos” como uma partitura musical, um guião fílmico ou a notação de uma dança: em todos os casos, um conjunto de instruções específicas permite gerar os media e conteúdos.
Coincidência feliz, o excêntrico texto “The Electronic Revolution” de William S. Burroughs de 1970 tratava de questões semelhantes e abriu-nos interessantes perspectivas dramatúrgicas.
A obra  .txt é “escrita” em várias linguagens num processo colaborativo. Cada artista envolvido gera o seu “texto” no medium adequado: o programador escreve código-fonte; o coreógrafo desenvolve um vocabulário e sequências de movimento junto com o bailarino; o músico concebe o material sonoro e estratégias de interacção; e um storyboard específicamente desenvolvido para o efeito contém os elementos visuais, tais como o design de luzes, materiais cénicos, superfícies e técnicas de projecção de vídeo.
Este texto híbrido pode ser considerada um “texto vivo” que é compilado somente em situações de ensaio e espectáculo, e só nestes momentos pode ser lido.
Numa das primeiras cenas da peça o bailarino é “perseguido” por um bando de palavras por todo o palco. Após diferentes e ousadas coreografias de fuga ele desiste. As palavras invadem a figura projectada do bailarino como se fossem um vírus até que o corpo do bailarino é transformado inteiramente em texto.
Outra cena mostra o bailarino rodeado por nuvens de palavras que ele pode separar e juntar por meio dos seus gestos precisos, de modo que novas constelações e significados emergem no espaço.
Em oposição a William S. Burroughs o público do .txt não é incentivado de revolucionar as estruturas de poder por meio de manipulação subversiva dos media electrónicos que nos rodeiam.
Antes pelo contrário tematizamos diversas formas de relacionamento entre o nosso comportamento e seu impacto no nosso meio-ambiente mais imediato. A extensão de ficheiro .txt pode assim ser entendido como alusão a tudo aquilo que ainda não foi escrito, ao que está para descobrir e realizar, dentro de nós e no nosso meio-ambiente.

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